O texto da loucura humana

Não me sentiria bem caso não revelasse à priori que o título deste texto deriva diretamente do projeto-livro de Nathan Glass, narrador e personagem de As Loucuras de Brooklyn, de Paul Auster. No livro, Nathan  atira-se ao projeto de escrever uma obra de seu nome “O Livro da Loucura Humana”.  Sem spoilar nada, até porque é apenas mais um dos plots da história, Nathan quer, aos sessenta anos, reformado, ter o propósito de reunir e registar histórias loucas, bizarras ou, de algum modo, sui generis, que lhe tenham acontecido. Ou a outr

Pretendo falar deste livro, pedindo desde já imensas desculpas por estar a repetir um autor tão cedo nesta minha empreitada formulada por uma cabeça e alma que parecem também elas, muitas vezes, reformadas, e, sempre, à procura de propósito.

Como (re)descobri na leitura uma espécie de entretém e redenção, se é que ambas podem coexistir, quero discorrer, ainda que me custe, sobre um outro livro, Pastoral Americana, de Philip Roth, que li também recentemente. É-me mais complicado versar sobre tal obra, mas vou tentar. Se, pelo caminho, numa espécie de brumoso fluxo de consciência, falar de mim, pois bem, terão de me aturar…

Ainda não havia lido esta obra de Auster, foi-me recomendada pela minha querida esposa, e a verdade é que, não desconsiderando toda a densidade da mesma, a forma despretensiosa cativou-me desde o início, com 300 páginas a terminarem rapidamente, apesar de os meus demónios me andarem a fazer perceber as letras de forma mais lenta.

Em suma, recomendo a leitura como forma de absorção das leis do caso, coisa que eu aprendi com Auster há muitos anos, mas também como forma de apreciar uma boa história, recheada de acontecimentos plausíveis e, ainda assim, que nos deixa expectantes em relação ao controlo que temos sobre as nossas vidas. Mas não só. Sobre as vidas dos outros, de quem gostamos, de quem não gostamos, de quem passamos a gostar. A liberdade pouco ou muito conjuntural e conjetural dos acontecimentos de quem passeia neste mundo é uma coisa fascinante. E Auster, como sempre, é um mestre em engendrar.

Diria que, de certa forma, com todo o mérito para o autor, se torna um livro leve e um page turner infalível, também pela forma como está dividido sempre em pequenos capítulos, mas que tanto nos contam sobre as quedas e as ressurreições diárias, semanais, mensais ou eternas, sim, eternas, que todos vivemos.

Dando o salto para Roth, Pastoral Americana não foi tão fácil de ler, com as suas longas frases e longos parágrafos, mas também pela densidade com que, em apenas (diria eu) 400 páginas, o escritor retrata o que tem a retratar, sem tirar, nem pôr. Diz tudo? Não, mas o resto está do nosso lado.

Acredito que se fosse judeu, ou americano, ou tivesse outra idade, as temáticas superficiais do livro, mas não por isso insuficientes, poderiam ter sido mais claras ou close to home.Famílias judias, Guerra do Vietname, etc. Contexto. A arte é a arte e o seu contexto, sempre foi e sempre será.

Mais uma vez, sem ser crítico literário, mas usufruindo de um dos meus direitos fundamentais – o de interpretação pessoal da arte – Philip Roth pergunta-nos “o que é fazer tudo bem?”, “o que é ser correto?”. Podia enumerar mais questões deste género, mas depois trata-se de controlo sobre o mundo e onde é que toda a correção do mundo, de um ponto de vista subjetivo, nos leva, aqui já objetivamente.

E tendo eu roubado o título deste texto a Auster, não posso deixar de falar de loucura humana em Roth e no seu livro. Porquê? Porque, meus amigos, está sempre presente. Até porque até fazer a coisa certa pode ser uma loucura.

São 11h33 doa dia 27 de agosto de 2025, quarta-feira, sendo que segunda saio do desemprego e começo a trabalhar. Tentarei, pelo menos uma vez por semana, trazer-vos alguma coisa para lerem, por mais fraca que seja. Tentarei, também, continuar na senda do ginásio e da saúde.

Das minhas muitas tatuagens, quero destacar dois pássaros, um em cada braço. Um diz “ser”, o outro “conseguir”. Nunca lá cheguei, mas acredito estar mais perto do que quando as tatuagens foram feitas. E isso, quero eu dizer a mim mesmo no final deste texto, já deve ser alguma coisa.