A Graça – um conto

Desciam a rua em ambivalência. A bisavó, radiante como era seu apanágio nos últimos tempos, apertava uma mão desconfiada, suada e pequena: a bisneta. Moravam apenas as duas, desde que os pais da criança tinham saído fatalmente da equação. O trabalho pode ser uma coisa perigosa. Ou, quiçá, aquilo que se trabalha com o que se tem no espaço laboral. De qualquer das formas, isto distrai-nos do passeio. Vinham as duas em paradoxo, pois apesar de não se lembrar do pai e da mãe e sempre ter vivido com a referida senhora, a pequena nunca gostou dela. E, quanto mais crescia, menos gostava. Não percebia porquê e até sentia uma certa culpa, mas era um muro que se vinha a desmoronar com o crescer do cérebro.

Mendigar ainda não era proibido, só o seria dali a uns dois meses, mas a imagem era tão clássica, tão cliché, tão na frente dos olhos que fingem não ver, que elas viram. Um rapaz, ainda sem idade, porque tinha a cabeça enfiada nos braços e nos joelhos, balançava ao som da música que vinha do andar acima, sensivelmente. Era rock n roll, daquele que a velha odiava, e de uma banda que viria a ser proibida dali a duas semanas. A neta gostou. A bisavó não gostou disso.

Aliás, tudo ali dava asco à pomposa senhora, ainda que de vestido recatado, escuro, até meio das canelas, e sapatos da moda que ela, pasme-se, odiava. Mantém os amigos por perto, mas… era o que significava aquele calçado. Nunca falaria com aquele homem e só por cima do seu mui nobre e limpo cadáver é que a bisneta falaria com ele. Iam as duas ao banco buscar dinheiro. A criança tentou travar o passo ao ouvir o rapaz chorar, mas levou um tremendo safanão que a magoou no cotovelo. 

“Ai!”

“Anda. É gente que não interessa. Nem sei se são gente… Nunca, mas nunca fales com mendigos, ouviste? Proíbo-te. E espero que os proíbam a eles muito breve!”, disse a avó com um esgar sádico. 

Deram três passos.

“Toda a gente é gente. O mundo é grande e em todo o lado se vive”, ouviu-se como num regresso de um soçobro.

Quando as duas, mulher e menina, se viraram, o rapaz limpava os olhos e encarava-as, não com demasiado orgulho, não com sobranceria, não com altivez, mas satisfeito com a resposta que tinha disparado. Ouviram-se risos e ele percebeu a sua direção. Avistou, um andar acima, uma rapariga mais ou menos da sua idade. Era de onde vinha a tal música que o embalava. Sorriu de volta. Olharam-se ternamente, como se percebessem tudo. E percebiam tanto, que sabiam que ele tinha de voltar a mirar a superfície.

“Ai meu filho de uma grande puta!”, pensou a velha. Era o que diria, e não só, não vindo agora ao caso o que ela faria, e não só, caso não houvesse público. Mas havia. Não só andares acima, como pela rua, visto os serviços e as lojas estarem prestes a sair da mísera meia hora de almoço. Sim, teria dito aquela frase, e não só, mesmo tendo a pequena caracóis pela mão. Assim sendo, sacou de uma das suas melhores e mais úteis ferramentas: hipocrisia misturada com desdém que resulta em ódio alheio e vergonha alheia e tudo o que se possa sentir quando uma pessoa, mesmo vestida de preto e sendo hipócrita, é transparente.

Sendo assim, saiu-lhe: “É mesmo, meu bom rapaz? Então por que não arranja um trabalho? Mendiga porquê? É novo, tem um ar forte, podia fazer algo. Mas, oh!, que mal educada sou… Vamos do início, até porque temos aqui uma criança. Qual é a sua graça mesmo?”

“O meu nome não interessa”, disse olhando a velha. “A minha graça é o nariz que perdi”, atirou à criança, rindo-se e piscando o olho delicadamente, como um gesto de aproximação que quer demonstrar gentileza e amizade.

A bisavó, mesmo sendo-o, não era muito velha. Era velha, idosa, claro, mas estava bem e julgava ainda ter forças para ajudar o mundo à sua maneira, e não só, e, se também tivesse que ser, educar a criança com os valores corretos.

“Vó! ihihihihih, ele diz que perdeu o nariz”, gracejou a jovem visivelmente contente.

Levar resposta de um mendigo e esse verme colocar a bisneta a rir fez com que a bisavó ficasse possessa, raivosa, demoníaca até, se acreditarmos com força. Apertou ainda mais a mão da miúda e ignorou, como sempre, as suas queixas, e colocou a outra mão no bolso. Queria gritar, vilipendiar, atirar merdas, espancar, etc. “Mas temos público”, pensou. A resposta, assim, ficou num estranho, mas transparente, meio caminho entre “sou velha mas um monte de merda” e “estou a fingir interesse e sou só reacionária”.

“Que história é essa de perder a merda do nariz?”, atirou desajeitadamente, apercebendo-se que tinha dito um palavrão à frente da bisneta, mas que também se estava bem a cagar para isso. Se a máscara já era um véu bastante ténue…

“Sim. Eu trabalho no circo e sem o meu nariz encarnado não consigo ter graça. Repare, pode dizer-me para ir comprar outro, que estar a chorar por um adereço esférico e vermelho é ridículo, mas era aquele e só aquele que fazia com que conseguisse fazer rir os outros. Mas, antes disso, ria-me eu e, sem me rir comigo, não consigo que ninguém sorria”.

Resultado desta declaração? Bisavó sem saber o que dizer; bisneta encantada e… a sorrir.

O rapaz reparou no sorriso.

“Minha jovem, ris por que motivo?”.

“Porque és fixe”.

“Como é que sabes?”

“Dás-me vontade de rir e a vó fica com uma cara engraçada”, frisou a pequena, ignorando o ódio que saíam dos olhos da velha. Mas não eram direcionados ao rapaz, não, e ela sabia. Eram dela, para ela e tinha feito por isso. E, apesar de petiz, era isso que também a fazia sorrir.

“MARIA DE JESUS E BEATRIZ ÂNGELO DESAPARECERAM HÁ TRÊS MESES”, li eu num oráculo que mais parecia um esquisso de um oráculo, em uma televisão que parecia um protótipo de uma caixinha mágica, e sobre um assunto que era um resquício de um tempo. Ao mesmo tempo fazia parte de outro, o que pode fazer desde já com que a minha função de narrador, até agora parafraseando a realidade com segurança, vá até ao circo, e como que fosse quem anda no fio segurando uma vareta, com ou sem rede por baixo, andasse sem fim. Afinal, queda é queda.

O que vos posso dizer, como tudo o que vos tenho dito, do que me contaram, é que tudo aconteceu muito depressa.

O rapaz que perdera o próprio nariz e, segundo ele, a graça, nem teve tempo de ver a coronhada que saiu veloz (tanto quanto uma bisavó consegue, mas cuidado…) e dilacerante na direção da sua cara. E, aqui, não houve ironias: Maria de Jesus apontou a parte menos bélica de uma arma, se é que este conceito existe, ao nariz.

O resultado também é pouco surpreendente, pois jorrou sangue para todo o lado. Agora sim, talvez ironicamente, o jovem voltava a ter um nariz, ainda que esmagado e partido, vermelho. Salpicou para o chão. Para a roupa dele, para as paredes, para a roupa da velha e para a cara da menina Beatriz. Com sete anos e mais alguns meses foi normal que tivesse ficado em choque e imóvel até que voltassem a falar com ela. Observava.

“Walk the corner to the rubble

That used to be a library, line up to the mind cemetery now”

Uma voz feminina repetia os versos que continuavam a vir do andar de cima. Se o gajo não deu por lhe rebentarem o nariz, a puta da velha mal viu que a rapariga-troca-sorrisos tinha descido a escada. Olharam-se. Ela parou de cantar e sorriu. O rapaz tinha parado de ganir com dor e seria, como Beatriz, um mero “paguei bilhete para este filme” até que o fizessem mexer ou falar.

“Olá, Sra. Dra. Excelentíssima Inspetora Maria de Jesus. Estou a ver que os seus bons modos não foram afetados pelas férias”, disse a mulher adulta esgarçando a velha que até ficou tonta. 

Tentou: “Eu não…”

“O caralhinho, sua vaca” foi um desconto de tempo para que a mulher do meio, no que à idade diz respeito, falasse à mais novinha. “Deixa-me adivinhar: chamas-te Beatriz Ângelo da Silva Ferreira. Não conheces os teus pais porque estão noutro país a trabalhar há muitos anos. Vives com este monte de merda de mulher que aqui temos em pânico – está, não está, Inspetora Maria? -, e em breve a tua vida será muito melhor”, acrescentou.

Beatriz como que voltou à vida, mais precisamente no momento em que a sua interlocutora fez aspas com os dedos quando disse a palavra “trabalhar”. Franziu a sobrancelha, algo não lhe pareceu certo, nem errado, pois não podia deixar de aferir a veracidade do havia sido proferido.

Houve coragem, justiça e sorte, pois pouca ou nenhuma gente estava ali naquela fatídica altura, ainda que fosse hora de abrirem os serviços. 

Houve um silêncio curto. Imensurável de curto. Mas que fez com que os quatro intervenientes ficassem eternamente numa espécie de duelo mexicano à espera do próximo passo.

Três dos quatro assustaram-se quando uma carrinha preta derrapou mesmo à sua beira. A porta abriu. Alice, nome da jovem do andar de cima, pontapeou a velha na barriga e duas pessoas de cara tapada e fato macaco enfiaram Maria de Jesus no carro e arrancaram a alta velocidade.

Beatriz não sabia nada. E não me refiro ao que ainda aí vem, pois claro que disso nunca poderia ter tido conhecimento. Era mesmo como se tivesse desaprendido, não soubesse andar ou falar. A bisavó agrediu, foi agredida e desapareceu. Num ápice. Um fósforo que mal pegou.

“Venham, venham, foda-se, temos de sair daqui”, disse Alice enquanto puxava a mão de Beatriz, que se deixou ir, e pontapeava o alegado e autoprocalmado palhaço sem graça, possivelmente meio louco, para que se juntasse a elas.

Entraram no prédio pela lateral e subiram as escadas a correr, três corações a bater cada vez mais perto da música alta que se fez ouvir durante este curta, ou longa, decida o leitor, cena. Chegaram à casa de Alice.

O palhaço sentou-se num sofá a arfar e Beatriz soube aquilo que não sabia através de Alice. Mais tarde em pormenor, dentro do possível, mas naquela altura só lhe era possível atentar em dois cartazes…

“PROCURAM-SE TERRORISTAS. FERNANDO DA SILVA FERREIRA E FLORBELA DA SILVA FERREIRA”.

“Estes são?…”

“Sim, Beatriz, são. E posso falar-te muito sobre eles, se quiseres”.

“Quero”, disse enquanto limpava sangue da cara sem qualquer nojo e olhava para as mãos como se fizesse parte.

Alice sorriu e fez-lhe uma festa nos caracóis, antes de começarem a conversar.

Nunca se soube, ou nunca ninguém quis contar, ou Alice e Beatriz não querem dizer, o que aconteceu ao palhacito. Sei que ouviu toda a conversa entre as duas, mesmo que já soubesse vários detalhes através de portas e travessas do meandro artístico.

Gosto de pensar que enquanto o mundo se perdia, ele encontrou alguma coisa (depois de recuperar de um nariz estilhaçado). Gosto de pensar que ele perdeu aquele nariz, que naquela tarde tanto acontecimento, por acaso, ou não, fez rolar, mas que percebeu o fundamental: era ele a sua graça.