Trilogia de Nova Iorque, Paul Auster e demais assuntos

Tenho para mim que a forma como escrevo não é a ideal, de certa forma. De jorro, sem pensar muito (acho eu), o que pode redundar em alguma confusão ou ausência de nexo  cronológico e até de ideias. Neste texto quero falar de um livro, dividido em três histórias, mas sem fingir saber analisar de forma académica e analítica uma obra. Não sou crítico, nem escritor, de profissão, pelo que sempre que falar aqui de livros ou leitura será de uma perspetiva híper-pessoal, subjetiva e leiga.

Sabem quando é que me lembro que gosto imenso de ler? Apenas quando estou a ler, para ser preciso. Absorto nas palavras, longe dos meus pensamentos e da minha dor e, quão importante é isto para mim, entretido. Infelizmente, passo muito tempo sem ler. Na faculdade li imenso, pois o comboio ajuda bastante, e lembro-me até, quando hipsteriamente e pseudo intelectualmente usava o Goodreads, de registar mais de 30 livros num ano. Em 50 e tal semanas não me parecia nada má média.

Durante essa altura e nos anos subsequentes dizia que o meu autor preferido era o agora morto Paul Auster, que ouvi uma vez na antiga Escola Politécnica, ao pé do Rato, e com quem não falei culpa de segundos de medo e hesitação. Era mesmo o autor que mais gostava de ler e, não tenho vergonha, autor do único livro ao qual dei um beijo na contracapa quando acabei de ler. Música do Acaso é o nome. De momento não o possuo, mas estou em pulgas para lá voltar e tentar perceber o que aconteceu então e de onde saiu aquele encostar de lábios tão sincero.

Isto tudo para dizer o quê? Bem, que reli muito recentemente a Trilogia de Nova Iorque que, como o nome poderá indicar, consiste num conjunto de três histórias, todas envolvidas em mistério, suspense, talvez atire para aqui a palavra thriller, e todas, se não com a figura efetivamente, com a aura das histórias de detetives. É aqui, à superfície, que tudo parece estar.

Apenas para justificar aquilo que vou dizer a seguir, em repetido, referir que no preciso momento em que redijo este texto estou a ler também Reading Like a Writer, de Francine Prose, um livro, segundo a capa, que é “um guia para pessoas que amam livros e para aqueles que os querem escrever”. Preâmbulo: não tenciono escrever um livro. No entanto, do que já li, é muito interessante e pertinente, giro de acompanhar, cheio de bons exemplos concretos. Devido a várias condicionantes, sendo a maior a minha cabeça, duvido ter capacidade para absorver o suficiente para vir a aplicar aqui nos meus textos, mas o que interessa, ao fim ao cabo, é que estou a gostar imenso. Também comecei Pastoral Americana, de Philip Roth, estando ainda por volta da página 60. Mas, após escrever este longo parágrafo, o que “vou dizer a seguir”, citando-me, é algo que referi esta amanhã ao meu amigo Luís. É algo deste género: para ser um bom escritor são precisas várias coisas paranormais.

E esta última palavra acaba por ser interessante para continuar o meu divagar sobre o livro de Auster. Não que exista algo fantasmagórico no sentido a que estamos habituados, mas a capacidade de leitura e reprodução da condição humana, geral e particular, que tais homens, como Auster, Roth ou Saramago têm, poderá até ser uma maldição para eles, mas uma bênção para quem passa os olhos pelas folhas.

Com efeito, nas três histórias de Paul Auster, que aconselho vivamente que visitem, os jogos de espelhos são mais internos do que provocados, ainda que sejamos, naturalmente, causa e consequência do que também se passa fora de nós. São boas histórias para quem gosta de um bom detetive ou mistério – e eu adoro Sherlock Holmes – mas são ainda mais profundas e verdadeiras para quem procura um retrato da busca e da perdição, da volatilidade da personalidade, mas, sobretudo, da volatilidade da vida.

Em Trilogia de Nova Iorque podem ser pequenas escolhas, mas são muitas pequenas escolhas, são tendências, são o descarrilar do que está em movimento, são o perdermo-nos em nós e no outro, sem saber muito bem onde está o Tordesilhas da situação. É incrível acompanhar as três histórias, e vou manter-me mesmo muito geral sem ir a cada uma, porque a noção de “self” é sempre posta em causa. Não digo que mude, não digo que não mude, não vou revelar que tipos de final têm as histórias.

Pareceu-me, relendo a obra uns 15 anos depois, que, tal como a minha psicóloga aprecia os meus textos de jorro porque desta forma vêm sobretudo do inconsciente, é dessa mesmo falta de consciência pensada, se é que o posso dizer assim, que advêm muitas das escolhas dos personagens. A dissimulação, a mentira, a cegueira ou a fusão total com a queda, que parece abrupta para quem esteve distraído durante o que Auster escreve.

Por conseguinte, é também impressionante como as várias questões internas afetam os restantes. E, aqui, tanto falo do que possamos considerar personagens principais para outros e vice-versa. Parece óbvio, certo? É a vida, não é? Contudo, a forma como Paul Auster nos coloca a refletir sobre decisões e personalidade em alegadas histórias pseudo policiais é de tal forma brilhante e certeira que só me faz, depois de Roth, voltar a ler mais deste meu velho amigo.

Este livro é incrível, como é a maioria da bibliografia de Auster. Lembro-me de não apreciar tanto um ou outro, confessando que ainda não li todos, mas quando vos vier falar de Música do Acaso, aposto que estes conceitos ressuscitarão.

Obrigado,
Rui