Pequena carta à guitarra

Este texto começou por chamar-se “Carta à Minha Guitarra”, mas rapidamente concluí que não faria sentido. Pelas minhas contas, passaram-se um par de anos a menos de duas décadas desde que comecei a ter guitarras. Desde então? Gastei muito, pouco, troquei com aquele, troquei com o outro, pedi emprestado, porque era essa: a próxima. Sim, a próxima. Ou o próximo amplificador ou o próximo pedal. Sim, sempre o próximo mas, por ironia paradoxal das palavras, cada vez mais afastado da realidade, do motivo e do, mesmo que discutível, certo.

Este texto surge agora, enquanto demais coisas acontecem na minha vida, porque é dia de voltar a pegar na guitarra, na música, na criatividade, aprendizagem e diversão. Com leveza, com noção, com amor. Tudo o inverso do que se passou nestes 20 anos.

Quem conviveu ou convive comigo sabe bem que a guitarra, enquanto conceito, sempre foi muito prejudicial e tóxico na minha vida e mente e saúde mental e tudo. Fruto de quê? Bem, expectativas desumanas, planos diabólicos, ansiedade e excitação para lá do saudável, que me fazia ter ataques de ansiedade gravíssimos só de entrar na divisão onde estava o instrumento.

A guitarra tem sido, e ainda é, um reflexo puro e cristalino da minha psique, da minha saúde, da minha incapacidade para ser melhor, ou o mínimo, pelo menos. Sempre me fez mal.

Por isso, guitarra, e porque tanto em ti já pensei, senti e falei, prometo-te leveza e dedicação com nexo, desde que não te importes de aparecer no Instagram de vez em quando.