“bem, não me divertia tanto há bué e em tão poucos minutos. entrei em flow state aqui com uns acordes e uns riffs manhosos na guitarra afinada meio tom abaixo e dei por mim a abanar me todo a abanar a guitarra e o caraças, só parei porque me caíram os phones e já agora tenho fome”. Salvador, Rui (2026, março, sete, à noite).
Se este parágrafo é-te repetido, parabéns, fazes parte dos 23 felizes contemplados com esta mesma mensagem na noite de ontem. Sim, leste bem. Vinte. E três. Pessoas. Diferentes. Receberam. A mesma. Mensagem. De Rui Salvador. Ao mesmo tempo. Só para não parecer que estou sempre a dizer mal de mim (cof cof), vou imaginar que foi outra pessoa que fez isto. Sei lá, o Carlos Moedas, o Hugo Soares ou o Paulo Rangel. Não acharia a situação triste e egocêntrica porque acho que eles são um monte de merda a la cena épica do Jurassic Park. Penso mesmo, a frio, que não é uma situação que se aconselhe, que me aconselhe, que seja aconselhável para estas 23 pessoas. Se é um sintoma automático e compulsivo da minha autêntica attention whoreness? Sim! Foda-se, sim, pah!
No entanto, apetece-me mais o reflexivo e menos o punitivo, que disso estou eu farto, está o Rui de 12 anos congelado sabe-se lá onde no meu intestino e, sem muitas dúvidas, estarão os meus mais próximos e quem lê, seja mais ou menos esporadicamente, estas palavras que atiro para aqui, mais ou menos esporadicamente.
Já escrevi sobre a guitarra e voltarei a fazê-lo, disso não tenho dúvidas. Ao mesmo tempo, tenho todas as certezas que, por estes dias ou próximo par de semanas, está situada a última oportunidade que dou a ter uma relação com a Celeste (era o nome da minha avó, que me criou, que está no meu braço também por intermédio de um Goku na nuvem, e foi a graça com a qual batizei recentemente a minha guitarra merdosa da Yamaha). São muitos anos, é muito cansaço, é muita exaustão mental que me atropela por conta de um tema que, bem sei, não vale nada. Para mim vale, claro, talvez não tão paradoxalmente assim, mas convém ser crescidinho e perceber que se não tenho a capacidade de que a guitarra seja saudável, devo afastá-la da minha vida o tempo que foi necessário.
Isto, apesar de ontem e daqueles belos minutos em que me perdi num local onde gostava de me encontrar mais vezes. É o que é. E não, não é uma punição, será, ao acontecer, fruto de lógica.
Lógica. Coisa que seguramente quem me lê acha que tenho pouco. Ou não, não sei já, enquanto navego este caminho de tentar maior gentileza comigo mesmo através de mim. E é aqui que consigo parir o que realmente importa na última frase: “através de mim”.
Não vou, de repente, deixar o WhatsApp.
Não vou, de repente, deixar de procurar fora.
Mas se estou a tentar… E mais de duas dezenas de mensagens copy-paste não se coadunam com este tentar. Atrevo-me a dizer que este texto, possivelmente mais pessoal, interior, privado e revelador, que atiro para a internet, faça mais sentido do que a situação referida.
A atenção, sabem? É disso que se trata, é isso que sempre foi. Ser intenso, demandar, procurar, perguntar, enviar, reduzir-me, insultar-me… a merda que quiserem. É tudo o caralho da procura da puta atenção. Pela dor, pelo vazio. E se já concluí que não é assim em barda que esse vazio será diminuído ou, pelo menos, percebido, é preciso agir nesse sentido e não noutros.
Como já aconteceu pessoas reverem-se nos meus textos, feliz ou infelizmente, esta lenga lenga toda que veio desaguar ao tema atenção é também para quem não sabe bem onde está o seu preenchimento ou, como eu, não sabe bem qual é a causa, ou sequer o molde e possíveis preenchimentos de um buraco gigante, ardente, doloroso. Seja ele de ansiedade e depressão, como eu, seja outra merda qualquer. Não me atrevo a falar por ninguém e sempre que falo no plural sou eu e o puto de 12 anos, mas não, não está ali. Não está ali nada.
Por mais fodido que seja, por mais que não cumpramos, e deste lado bem sabemos que não cumprimos, por tudo o que possa impedir, complicar ou bloquear, inclusivamente o próprio, neste caso eu, sei que é, sem negar a ajuda externa, em forma de família, amigos, terapia, comprimidos, arte ou andar a pé, o meu próprio joelho dobrar-se que me fará mover porra que seja.
Vosso,
Rui
