Rui & Tempo, uma relação tóxica. Vol. 1

“No one told you when to run, you missed the starting gun”

A música não vai durar a redação inteira deste texto, mas serve o pretexto, não é? Já muitas vezes, ao longo dos anos, me disseram que uma das minhas tatuagens (já mostro aqui no texto ou no Instagram) faz lembrar este tema dos Pink Floyd. Não era o objetivo, mas faz sentido.

E sim, neste pedaço de prosa merdosa vou discorrer sobre tempo, o que quer que essa merda seja. No entanto, como sempre, parto de uma perspetiva unicamente pessoal, interior, desesperada, mas não alheada de vós. Cada um tem a sua experiência com o tempo: esta é a minha.

Este texto tem como ponto de partida a finitude. A incapacidade. O não fazer enquanto, adivinharam, a entidade tempo continua a passar. Levo sempre este tema à terapia e a minha psicóloga aconselhou-me a ler e ouvir coisas sobre isso. Comecei um livro de um cientista italiano, que confesso ter deixado no primeiro capítulo because cenas, mas foi precisamente um breve episódio de podcast que ela partilhou comigo que serve de rastilho.



Estou sempre, sempre, sempre a pensar no tempo. Que me vai comer, no que estou a perder, se devia ler, tocar, escrever, ouvir, sentar-me, meditar, correr, etc… Desespera-me ter de escolher e isso, juntamente com as demais características mentais que possuo, bloqueia-me. Aliás, se vocês soubessem a ansiedade que foi até começar este texto. A seguir vou tocar, espero eu, mas qual o melhor tom, a melhor aula, qual a melhor forma de gastar bem o tempo.

Aqui entramos também no meu eu idealizado, no perfecionista da inércia, na megalomania, no pedestal a que tudo tem que chegar à primeira. Não me permito brincar. Sim, brincar, era só isso que eu devia fazer com a arte neste período e em qualquer período da minha vida. Mas as idealizações, mas o tempo…

E não estando alheado de vós, também não estou de mim. Passo a explicar.

Não conseguir ir tocar X cena agora à primeira, porque leva tempo, treino, faz-me pensar que se não consigo ter uma rotina Y com aquilo, nem vale a pena começar. Isto é o quê, além de sabotagem? É estúpido, meus amigos. Estúpido e nada saudável.

Eu sei que tudo é melhor que zero, eu juro que sei. Mas é que eu prometo que sei. Ajo assim? Não. Porquê? Entre muitos motivos, o tempo, chegar, sair, partir, conseguir, treinar, objetivas, a viagem, o regresso ou o destino.

Variáveis, muitas variáveis.

As condições ideais, claro, faltava isso. Se o MEC aconselha a escrever uma hora por dia, eu em vez de adaptar à minha vida, de qualquer forma ou feitio, bloqueio no livro e bloqueio na produção. Mais uma vez, meus amigos, estupidez, sabotagem, megalomania, idealização e tempo. Aquele teclado, livro, guitarra, pedal, aula, tempo, hora, disposição, o caralhinho que me foda mais isso tudo. Entendem?

Quando leio? Perco-me. Quando toco? Brutal. Quando escrevo? Liberto-me.

Quando penso no tempo? Masmorras.

Sou todo grilhões, de Chronos e Kairos, a merda é toda a mesma, embora perceba a diferença que não me apetece agora explicar. Mas o momento, eu quero-o.

Qual? Este, claro.