Carta ao Rui de 12 anos

Querido Rui Miguel Dias Salvador, nascido a 15 de fevereiro de 1991, residente em Negrais, estudante em Montelavar, atleta federado de basquetebol dos Lobos da Malveira. Estás neste momento num período que podemos situar entre 2002 e 2004. Para efeitos deste texto e exercício, digamos que estás agora com 12 anos.

Não é de agora, mas és um excelente aluno, apesar de, mesmo não sendo uma criança mal-educada, seres foco de distração nas aulas, para ti e para os outros. Adaptaste-te bem ao basket, à equipa, aos novos colegas e futuros amigos, aos treinadores, à rotina, e até tens um jeito aceitável para o desporto em questão.

Feitas as introduções, a pergunta que terá faltado, ou que faltou, pelo menos para efeitos deste texto e exercício: como estás?

Eu sei como estás, descansa. Aliás, podes mesmo estar descansado porque, ao contrário do que parece, não por fora, mas por dentro, está tudo bem, jovem Rui. Mas sim, eu sei, meu querido jovem, sei bem, e é por isso que quero abraçar-te, diretamente de onde estou, para a altura em que sensivelmente tudo começou.

Sente-te abraçado. Nem que seja por mim. Agora. Mais de duas décadas depois.

Vou adivinhar, deixas? Estás com ligeiras dores de cabeça que não sabes bem situar e começaste com tiques, principalmente a piscar os olhos, como tão bem repararam e comentaram de forma tão eloquente os seguranças do bar lá da terra, quando entraste lá pela primeira vez com amigos do basket. Fazias anos. Se não me engano fumaste o teu primeiro cigarro e bebeste a tua primeira cerveja com groselha de palhinha. Boas memórias, já viste?

Mas deixa-me continuar no meu processo de Nostradamus impostor. Sentes-te triste e não sabes identificar, certo? Não gostas de ti, começas agora a perceber que, o que quer que isso seja, não tens autoestima. Fazes merda para chamar a atenção. É a tua vez de assumir a equipa e basket e sentes-te pequeno, assustado, medroso, fazes de tudo para fugir mas, ao mesmo tempo, essas coisas que aos teus colegas e treinadores parecem parvoíces, até porque o são, erguem-se como verdadeiros pedidos de ajuda. Em desespero. No desconhecido.

A bola queima nas mãos, os ténis, bonitos e caros que os teus pais te deram, parece que pesam. Os treinadores, a fazerem o melhor que sabem, tentam puxar por ti. Os teus colegas idem ou, em poucos casos, com razão também, exasperam.

O basket, sempre o basket…

Não me controlo a contar-te um segredo. Estou casado e a nossa mulher é a pessoa mais maravilhosa que já conhecemos. A nossa filha é um amor traquina saudável que diz que gosta de mais. Mas bem, bem, bem cá no fundo, ainda o basket, meu querido Rui de 12 Primaveras. Estes anos todos depois, sempre. E sabes o que sinto mais? O mesmo que tu, meu jovem: uma vergonha que me consome em ansiedade e depressão atrozes.

Sabes, eu compreendo-te. E é mesmo isso que quero que interiorizes. Porque não vale a pena e só te vai destruir, porque és novo e tens de parar com isso, porque te vai morder o cu e vai ser fodido livrares-te dessa merda dessa maldição.

Rui de 12 anos, meu amor, está tudo bem. Pára de te cobrar tanto, larga essa responsabilidade de quarentão, pesada, triste, enquanto eu prometo tentar deixar de ser pequeno aos 34 anos. Fazemos essa troca, boa?

Respira, está tudo bem. És suficiente, és mais do que suficiente.

Confia. Estás e vais fazer o teu melhor. Eu acredito em ti. Acredita também.