Tenho plena consciência de que este texto, que vim a magicar e imaginar no comboio sem grandes limites ou conclusões, vai acabar a ser lido por outras pessoas. É mais forte que eu. Não sei se vai para o site ou para as redes, se fica pela Andreia e mais uma troika de pessoas, ou se será o spam habitual à multidão. O mais provável? Que todas as hipóteses sejam verdadeiras.
Exponho-me muito nos meus texto e, por conseguinte, nas redes sociais e derivados, mas agora, por dois ou três estímulos que hoje recebi, achei que “eu, o texto” devia acontecer. Por mim, pela Eva, pela Andreia, por todos os que lidam comigo, até por uma possível pessoa que também anda a lidar com uma saúde mental fodida e identifica-se aqui em alguma merda. Fora do meu mundo, basta uma pessoa para isto valer a pena. É cliché? É, mas caguei. Mesmo.
Estou na varanda e vejo o Palácio da Pena. Fumo e bebo café, apesar de serem dez da noite, porque inventei que atenua a dor. É mentira. Eu minto-me muito. Contudo, torna-se complicado quando tudo o que se reconhece parece ter essa mesma falta de verdade, mas não conseguindo eu chegar nunca ao verosímil. Tendo plena noção que criei à minha volta o livro do Pedro e o Lobo, e que quando este efetivamente chegar o mais provável seja o desdém alheio, continuo.
Tenho de cuidar de mim. Não posso beber tanto café, fumar tanto, achar que aqui ou ali está a fuga do abismo. É que nem existe bem buraco negro, de tão fragmentado que sou. Admito: não cuido de mim. Tenho os dentes na merda (lava-os, Rui Miguel), fujo aos cremes da barba e da cara mesmo com dermatite seborreica. Se leram o meu texto de ontem, já referi que a rotina está impossível. Bem, não está, não é verdade? Isto dá claramente para encaixar. Como o exercício em casa, como o regresso saudável à guitarra que me está a criar tanta excitação que estou a fazer um trabalho colossal para não ir parar a uma fase proto maníaca.
Um guia. Mas que guia? Não posso ser eu, mas sou eu a única pessoa que conseguiria ou conseguirá, eventualmente, ser um sherpa nestes himalaias. A vida é fodida e é tudo ao mesmo tempo.
Ainda incluída na expressão anterior está a minha querida amiga, amante e companheira ansiedade. Li, há pouco, que é diferente dizer “eu sou ansioso” ou “eu estou a sentir ansiedade”. Claro que por um lado quero é que essa merda se foda e vá às urtigas, mas já percebi, de outros capítulos, que mudanças de discurso, sobretudo o interno, são essenciais.
Eu não sou a minha ansiedade. Mas ela ama-me, consome-me, faz amor comigo e não me dá o número de telefone, aparecendo no bar novamente, todos os dias, sempre à mesma hora. Trabalho, marido, pai, filho, cidadão… tudo toldado, tudo turvo, tudo pintado da pior cor de diarreia a toda a hora. A paranoia, a insegurança, a falta de autoestima, o medo, o cabrão do medo, todo o dia, desde que acordo. Eu não sou a minha ansiedade. Sabiam? Eu não sou a minha ansiedade. Eu não sou a minha ansiedade. Eu não sou a minha ansiedade. Mas quem sou eu, então?
