O miúdo tundra

Olá, miúdo, companheiro que até no pulso pintado trago. Volto a ti, pois só tu sabes mesmo. Repara, tudo o que nos escrevi no outro dia mantém-se: as coisas boas. No entanto, puto, estou a colapsar mentalmente, emocionalmente e fisicamente. Os motivos? Bem, se calhar, para variar, até os consigo identificar. Se são lógicos, se são merecedores “disto”, se se justifica serem causadores “disto”… Bem, isso é só mais uma camada, em que, provavelmente, para meu desgosto, pois não há o ultrapassar, tenho que responder “não”.

Começo por tentar abraçar-te, mas não consigo. Estás congelado no meu âmago, mas choras lágrimas de exaustão, tristeza, desamparo e incapacidade. Estás frio, estás gelado, estás parado. Uma composição gélida e petrificada com o coração mais forte do universo, que, em vez de sangue, bombeia fel para o resto do meu corpo. É azedo, és azedo, somos azedos. Temos culpa? Aqui tenho de deixar o plural, porque tu não e eu sim. Admito. E é também por isso que compreendo e aceito a descrença e saturação alheia. Se ela até existe em mim, não é?

Quem me dera ter-te podido ajudar, Rui, quando querias assumir o jogo, e em vez disso fazias merda para chamar a atenção. Quem me dera ter-te podido ajudar, Rui, para seres melhor para os teus colegas e treinadores. Quem me dera, Rui, ter-te podido ajudar a seres melhor para ti.

Porque vinte e três anos depois, aqui estamos. E agora, no momento em que mais precisamos de ajuda, com sentimentos num ponto que não conhecíamos, não diria que queimámos pontes, mas é certo que já ninguém nos leva tão a sério. “Lá está ele outra vez”, pensarão. O que é legítimo e não me chateia, porque também não sou assim tão merda, apenas estou na merda. Vês? Estou a tentar mudar o discurso, mas o bafo morno que dele vem não é, nem poderia ser, suficiente para te tirar dessa tundra.

Eu amo-te, quero abraçar-te, como já te disse, e por isso sei que não fazes por mal, ainda hoje, quando misturas merdas no meu sangue. Porque esta parte é minha, mesmo sendo nossa, os ataques de ansiedade ou pânico ou o caralho diários e constantes que temos que esconder. As caretas pela dor que existe e não existe e sobe do umbigo até nos fechar a garganta em desespero. O bloqueio em frente aos dois ecrãs do trabalho, em frente aos ténis de corrida, em frente aos livros, em frente à guitarra, em frente a sentir alegria, em frente a estar contente com o que tenho, em frente ao agir, em frente ao ser homenzinho, em frente à tua filha, em frente à tua mulher. Desbloqueio? Só com os cigarros, os mil cafés, a comida em barda e o desespero que estão a enfardar. Não é saboroso, mas é imenso. E não sei bem o que é que alimenta.