Saúde mental, parte 1

Foi na pré adolescência, algures entre o 11 e os 13 anos, seguramente na altura em que comecei a jogar basquetebol. Já agora, dizer como é engraçada a dualidade e a ambivalência da vida, com estes anos no desporto a causarem-me tanto traumas, como memórias felizes e inesquecíveis. Mas foi precisamente nessa altura, a mesma em que me apareceram todos os tiques que mais de 20 anos depois ainda me atrapalham tanto a qualidade da minha experiência no mundo. Pior, foi também então que apareceu a dor de cabeça, a mesma com a qual acordo, deito e passo o dia, sempre num esforço e sofrimento tremendo, diminuindo a qualidade de vida e tirando a capacidade de merdas como ler, jogar, escrever ou ver um filme.

Acredito, agora que começo este projeto, que os textos não mudarão muito a forma, com todos os defeitos associados. Não sou nada criativo, devo muito à inteligência e, acredito que quase sempre, escrevo de jorro, nunca sabendo muito bem onde vou acabar. Pois bem, este aparte serve para vos pedir desculpa por isso mesmo. Continuando…

Cedo ficou claro que eu até tinha jeito para o basquetebol. Foi necessário aprender muito, a nível técnico, tático e de fundamentos, mas sendo eu um ano mais novo que os meus colegas quando entrei, iria assumir a equipa aquando da subida de escalão deles. E aí, meus amigos, é que a coisa começa a enevoar. Não tenho problemas nenhuns em assumir que falhei. Perante os miúdos que me acompanhavam, treinadores ou até os meus pais. Falhei e fui estúpido, mimado, egocêntrico e cobarde. Mas sabem que mais? Fui também um jovem triste, sem qualquer tipo de confiança ou autoestima. Daí que não treinasse bem, daí que não assumisse o jogo ou as minhas responsabilidades, daí que tenha frustrado tanta gente, eu à cabeça. O que eu fiz foi feio. E sim, até tenho uma medalha de prata a representar a seleção de Lisboa, o que até aconteceu mais que uma vez, mas fiquei a dever a muita a gente. Acima de tudo, fiquei em dívida para comigo, e é essa ausência que me faz um buraco no peito que tento ainda hoje preencher com tabaco, café, comida ou autocomiseração.

Os anos, sem surpresa, foram andando. Na mesma medida, o meu egocentrismo e o sentir pena de mim próprio nunca mais pararam de crescer. A faculdade, os namoros ou coisas parecidas com isso, o entrar no trabalho, o casar e ter uma filha, um divórcio. O que têm estas coisas em comum? Estar assombrado. Mas trata-se de um fantasma trapaceiro, que diz estar tudo bem, para ficar sossegado, que tentar é inútil a menos que tudo seja rápido, perfeito, eficaz e com resultados imediatos. É também para combater esse Casperzito filho da puta que estou a tentar voltar a escrever, aprender coisas, criar.

Até agora, estive na maior parte a falar da minha barriga, como digo à minha psicóloga. É que todos os dias eu sinto gafanhotos (vou usá-los porque tenho praticamente fobia deles) no estômago: ansiedade pura e dura all day long. E uma pessoa fecha-se na sua dor, torna-se egocêntrica até mais não, podendo ter a sorte, como eu tive, de encontrar amigos sem medo de puxar orelhas e dar call na minha bullshit. Passando dos insetos para o racional, eu sei que devia estar mais grato, eu tento pensar nas coisas de forma racional, eu tomo os meus medicamentos, mas é fodido. O bom disto tudo? Além da minha filha ter saúde e ser um amor, ter-me casado com a pessoa da minha vida foi uma bênção. E, embora muitas vezes me comporte como se estivesse no basket, é na Andreia que encontro o bom. Neste parágrafo, Andreia, além de querer pedir desculpa por ser um jogador que não aproveita as suas qualidades mesmo duas décadas depois, quero dizer-te que te amo. E não me alongo mais, porque terás certamente alguma coisa neste site só sobre e para ti. Um beijo, minha querida. No momento em que escrevo isto, mais do que gafanhotos, são mesmo borboletas para que voltes do trabalho e te possa ver e ouvir.

Lá está, pode ser um problema escrever de jorro, mas sinto-me honesto ao fazê-lo.

Podia ter feito aqui uma crónica detalhada da minha saúde mental, mas terei mais oportunidades para falar do assunto, de uma forma ou de outra. Mas, para a concluir, e não largando a minha dor, quero muito deixar de ser tão egocêntrico, quero fazer mais, deixando de ser um irónico perfecionista que nunca começa e só sabota, sejam textos ou jogar PlayStation

Para fechar, e mais em relato do que queixume, dizer que nunca pensei que aos 34 anos, vou falar da atualidade, o meu corpo reagisse assim à minha saúde mental. As dores de cabeça não reagem a nada e moem e matam e quebram, mas o resto do corpo, desde há uns anos para cá, seguiu-lhe as pisadas. Reumatologistas, especialistas da Dor, vários exames e análises, tudo e mais alguma coisa. O resultado, segundo eles? Nada, é tudo a ver com a psique. Preciso de exercício, preciso de perder peso (escreverei sobre estes dois temas também), e de me orientar sem diagnóstico algum. Fibromialgia? Talvez, mas nesta altura também é só um nome, que se foda. O que interessa são os factos, não aguentar com sacos do lixo, ter sempre as pernas e os joelhos com dores horríveis, etc e bla bla bla. É mais uma luta e, racionalmente, sei bem que só me resta marcar presença na batalha, sabendo que pode nem haver vencedores e vencidos, um resultado final, uma conclusão. Como dizia o poeta: é o que é.

Peço desculpa se começámos, andámos e terminamos dentro do domínio do confuso, mas já agora dizer-vos que me soube bem escrever este texto, ainda que ele seja tão all over the place como eu.

Obrigado,
Rui