Cães Perdidos/Estátua

Antes de chegar ao que quero dizer, ou acho que quero dizer, tenho mesmo que enumerar – e desculpem-me por isso – um sem número de mais achismos. Ou seja, eu li, ou acho que li, percebi, ou acho que percebi, vou parafrasear uma ideia, ou acho que vou, a menos que seja uma criada por mim a partir de outra, como devem ser muitas… bem, já me perdi. Dizia: acho que a vida está, absurdamente, e não uso esta palavra de forma inocente, entre aquilo que queremos enquanto humanos e o infinito, ou finito, o que vos aprouver, mas o gigante e incansável, imensurável e desesperante que o mundo tem para oferecer ou tirar.

Tanto assim o é que, sem qualquer coincidência, estou a escrever com música, algo que nunca faço. O disco? Lost Dogs. A banda? Pearl Jam. Tendo eu ontem feito a tatuagem deles (ver Instagram aqui do rapaz) com duas variações, este álbum pareceu-me o ideal e já vão perceber porquê. São músicas não lançadas, lados b, etc, etc, etc. Sinceramente? Nunca meti este disco a dar, apenas alguns fan cult classics avulso. Mas não tem graça ouvir o “perdido” de algo que conheço tão bem? Lembra-me de mim. E, como não sou especial, senão mais um humano aqui perdido, aposto que em algum pormenor este proto conceito vos vai lembrar de vocês. Enganei-me?

A minha mulher, que espero não se importar que a atire aqui para o meio de modo a dizer que é a minha escultura preferida, e a minha filha, ainda sem idade para ler, também não ficará chateada se a adjetivar de a minha argila de luz e água e terra e vento e presente e futuro e tudo. Quem mais me atura, e às minhas merdas (sim vocês), afigura-se uma jangada que mantém à tona em fuga a Caronte.

O parágrafo anterior refere pessoas. Com sentimentos, valores, momentos, alegrias, tristezas. Pessoas como eu. E este é o meu ato de contrição por trata-los como contentores de merda, depressão, ansiedade, tristeza e violência. Por “tudo”, peço desculpa do fundo meu ser, o que é que quer que isso seja neste momento. Mas prometo que é algo. Juro que será mais. Asseguro que estou para chegar.

Mas o mundo, o planeta e o seu vazio, o universo e o seu silêncio. E eu só queria cantar.

Fazemos muita coisa, gente, sabiam? O que não falta aí são materiais, até pessoas já o são, imagine-se. Não me excluo, apenas espero não o ser ou não me tornar um dia. Porque ando sempre à procura deles como se fossem uma peça do meu puzzle. Um jogo que nem sei se existe. E se existe, ainda não aprendi a jogar, nem as regras.

Ando a preparar coisas que não textos sobre mim ou saúde mental, algo que este acaba também por ser de forma, muito, muito, muito, muito, muito… pouco velada.

Mas agora, a esta hora, enquanto toca a Last Kiss, dos Pearl Jam, que é, podemos dizer, por vários motivos, linda morrer, sou só alguém que a seguir vai tocar guitarra, mais tarde ler, e entretanto dizer à Andreia que uma escultura não é algo de pedra sem vida. É algo para que podemos olhar e pensar sempre: Amo-te, fica.

Pelo menos para mim, caguei na Venus de Milo.